terça-feira, 7 de julho de 2020

Dicas para gravação caseira de áudio com equipamentos domésticos

A intenção, aos escrever essas breves dicas para uso de equipamentos caseiros, parte do quadro pandêmico em que nos encontramos, momento em que diversos profissionais da Rede Municipal de Ensino vêem-se embuídos do teletrabalho e precisam criar conteúdos usando materiais e equipamentos que tiverem à mão. Neste sentido, telefones celulares possuem microfones superiores à grande maioria dos computadores. Telefones móveis possuem microfones condensadores otimizados para captura do áudio da voz humana e ofertam a possibilidade de captura de áudio sem a necessidade de instalação de nenhum aplicativo. O melhor áudio que qualquer aplicativo conseguir capturar não oferecerá uma vantagem audível em equipamentos comuns comparando-se ao áudio da câmera em modo de alta definição (HD). Assim, se seu celular não possui memória para a instalação de um aplicativo de gravação de voz, use a câmera do aparelho e depois descarte o vídeo, ficando somente com o áudio na hora da edição. Outra vantagem do celular advém do fato de que é completamente silencioso, ao contrário de computadores que possuem ventoinhas e discos rígidos mecânicos que produzem ruídos ao operar. Então, esse é o material mais indicado.

 

Para quem insiste no uso do computador, melhor opção ao microfone do aparelho são os microfones externos tipo USB, de fácil conexão e instalação. O uso do microfone do próprio computadores não é recomendado porque normalmente captura ruídos do próprio equipamento, como ventoinhas, discos rígidos e outros. O uso de um microfone conectado na placa de áudio do computador pode produzir bons resultados dependendo da qualidade do microfone e da boa conexão com a placa. Em áudio profissional a conexão entre microfone e placa de som é feita usando-se com plugues maiores ou, até mesmo, por conectores balanceados. A entrada e saída de áudio nos equipamentos domésticos ocorre, normalmente, utilizando-se cabos tipo P2, que são pequenos demais para os pesados cabos de microfone. Havendo boa conexão e utilizando-se um bom microfone, pode-se obter um bom resultado com o computador.

 

Gravar áudio é um processo criativo. A construção de um fonograma passa por diferentes etapas e situações diversificadas podem acontecer ao longo do caminho. Um produtor experiente busca equilibrar as limitações físicas provenientes das leis da ondulatória geral e da acústica, com as limitações acústicas de instrumentos, equipamentos e espaços de captura, buscando preservar as características da amostra em questão. Trata-se de engenharia complexa. Muitas vezes a matemática envolvida chega a ser indecifrável aos não iniciados, de maneira que a nossa sensibilidade ao som precisa assumir o processo. Então vou ater-me diretamente nas dicas práticas. Explicações teóricas, sejam do campo da física, da música, da psicoacústica ou de outros campos poderão ser detalhadas em momento mais oportuno. Também é preciso atentar ao fato de que nos limitaremos a dicas de captura de áudio. Edição, mixagem e masterização são processos complexos demais para serem abordados nestas poucas linhas e merecem um tutorial à parte.

 

Hardware: telefone celular com qualquer sistema operacional.

Software de captura: câmera

 

Dicas de captura:

 

- Fale direcionalmente ao microfone. Normalmente, o microfone fica na parte frontal inferior do aparelho. Dirija a voz para aquele ponto. Dê preferência a repousar o aparelho sobre uma mesa ou suporte de modo que o microfone fique fixo sem receber choques ou mudanças de ângulo durante a gravação. Use o telefone como se fosse um daqueles antigos gravadores k7 de mesa.

 

- Use microfonação afastada. Coloque o aparelho na sua frente, com uma distância ideal entre 30 e 60 cm. É uma distância pequena que evitará o que chamamos de pop noise, que é o ruído do ar (vento) dirigido ao microfone. Algumas consoantes geram um pulso de ar que prejudica muito a inteligibilidade do áudio e é trabalhoso resolver este problema na edição. Para gravar instrumentos acústicos também é melhor empregar microfonação afastada. Teste a gravação e reposicione o aparelho se preciso.

 

- Reflexão planejada. O som é uma onda, assim como a luz e, como tal é refletido ou absorvido por diferentes materiais. Materiais duros, em geral, são reflexivos: paredes, vidros, metais, azulejos, entre outros. Tecidos e espumas são absorventes: colchões, tapetes, travesseiros, etc. Uma captura de voz para posterior edição requer que o áudio possua a menor quantidade possível de relexão, pois a ambiência é acrescentada posteriormente. Captura de voz sem edição, por outro lado, é melhor que seja feita em um ambiente mais reflexivo. No caso da EJA Centro I, estamos trabalhando com a primeira alternativa, ou seja, áudio com pouca relexão para tratamento à posteriori.

 

- Silêncio é meta! Silêncio absoluto só é possível ser obtido em condições muito especiais e em laboratórios complexos construídos especificamente para isso. Então, temos que encarar o silêncio do ambiente como meta! Se preciso, desligue aparelhos, feche portas e janelas, espere o carro passar, o avião ou o barulho na vizinhança. Por mais que seja possível tratar uma peça de áudio, tanto quanto menos edição, melhor, em função de várias variáveis. Não se faz edição de áudio sem prejuízo do sinal. Você professor também não irá querer gastar horas na edição de um áudio, que é processo complexo e trabalhoso, sendo que todo este trabalho poderia haver sido evitado com a busca de silêncio no set de gravação.

 

- Todos que possuem automóveis possuem também uma cabine de som em casa. O interior dos automóveis é construído para minimizar os ruídos externos e os ruídos mecânicos do próprio veículo. Materiais absorventes, como tecidos, são abundantes no interior dos veículos e minimizam a vibração dos vidros que, por sinal, são bastante reforçados e vedados, de modo que vibram minimamente. Com o veículo todo fechado, desligado e estacionado em um lugar silencioso você terá uma verdadeira cabine de áudio.

 

- Caso não consiga resolver o ambiente, elimine-o. É exatamente isso. Se você não possui um lugar adequado, com pouca relexão acústica, uma opção a considerar-se é gravar ao ar livre, sem a presença de ambiente nenhum. Mas lembre-se, você precisará de silêncio, então gravar ao ar livre só é viável se, realmente, você está em um local silencioso. Caso seja esta a sua situação, evite ficar contra o vento e use microfonação próxima, falando a poucos centímetros do celular.

 

- Articule bem as palavas. Cuidado com as consoantes como “p” e “b”, pois podem gerar uma coluna pesada de ar, que resulta em um pulso grave. Consoantes como “c” com som de “k” e “k” produzem um som gutural que, em alguns casos, resulta em um clique seco no áudio. Com microfonação afastada, não ha muito problema com as consoantes, mas, utilizando-se de microfonação próxima, sim, o controle das consoantes é fundamental para um bom resultado final.


Gilberto André Borges

domingo, 5 de julho de 2020

Leitura de "O Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint-Exupèry

Leitura de O Pequeno Príncipe

Escrito por Antoine de Saint-Exupèry

 

Podcast produzido pelo professor Gilberto André Borges do Núcleo EJA Centro I da Rede Municipal de Ensino da Prefeitura de Florianópolis. O podcast inclui a leitura de obras de domínio público de diversos gêneros e outras produções realizadas pelo núcleo.

 

AberturaLeitura integralVida e obra do autor

 

 

 

Capítulos

Capítulo 01 |

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sábado, 25 de maio de 2019

Artigos

Alguns escritos pelo velho blogueiro que por aqui vos comunica. Talvez interesse para alguém da Educação Musical, ou de outra área.


BORGES, Gilberto André. Tecnologias da Informação e Comunicação na formação inicial do professor de música: um estudo sobre o uso de recursos tecnológicos por estudantes de licenciatura em música no Estado de Santa Catarina. Dissertação de mestrado. Universidade do Estado de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em Música. Florianópolis, 2010.

BORGES, Gilberto André. Educação Musical nas Escolas: Reflexão sobre a experiência desenvolvida juntos as escolas da Rede Municipal de Educação da Prefeitura Municipal de Florianópolis. Monografia de Graduação. Florianópolis: Udesc, 2003

BORGES, Gilberto André. Jorge Antunes. Vida, obra e fontes para pesquisa. Monografia apresentada como pré-requisto parcial na disciplina História da Música no Brasil. Universidade do Estado de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em Música. Florianópolis, 2008.

BORGES, Gilberto André. Discutindo fundamentos da Educação Musical. Florianópolis: musicaeeducacao.mus.br, 2007

BORGES, Gilberto André. Trajetória da Educação no Brasil. Pensamento Pedagógico Brasileiro. Memorial descritivo apresentado como pré-requisto parcial na disciplina Pensamento Pedagógico Brasileiro. Universidade do Estado de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em Educação e Cultura. Florianópolis, 2004

BORGES, Gilberto André. Entrevista para a Revista Música e Educação. Belo Horizonte, 2011

BORGES, Gilberto André. Avaliação formativa nos cursos de Licenciatura em Música. Anais do XIII Encontro Regional ABEMSUL, Porto Alegre, 2010

BORGES, Gilberto André. Competências e formação docente em Educação Musical. Florianópolis: musicaeeducacao.mus.br, 2012

BORGES, Gilberto André. Educação Musical e política educacional. Florianópolis: musicaeeducacao.mus.br, 2012

BORGES, Gilberto André. Tecnologias da Informação e Comunicação e formação docente em Educação Musical. Anais do XII Encontro Regional ABEMSUL. Itajaí, 2009

BORGES, Gilberto André. BORGES, Gilberto André. Tecnologias da Informação e Comunicação na formação inicial do professor de música: um estudo sobre o uso de recursos tecnológicos por estudantes de licenciatura em música no Estado de Santa Catarina. Anais do XIX Encontro Nacional da ABEM - Associação Brasileira de Educação Musical: Goiânia, 2010

BORGES, Gilberto André. Educação Musical no Ensino Fundamental e Canto Coral: uma reflexão a partir da experiência da Rede Municipal de Ensino de Florianópolis. Florianópolis: musicaeeducacao.mus.br, 2007

BORGES, Gilberto André. A arte e seu vínculo com a história. Florianópolis: musicaeeducacao.mus.br, 2006

BORGES, Gilberto André. Conteúdo e estilo na obra de arte. Florianópolis: musicaeeducacao.mus.br, 2006

BORGES, Gilberto André. A arte contemporânea. Florianópolis: musicaeeducacao.mus.br, 2006

BORGES, Gilberto André. Psicologia da Educação e música: possibilidades. Florianópolis: musicaeeducacao.mus.br, 2006

BORGES, Gilberto André. Educação Musical Significativa. Florianópolis: musicaeeducacao.mus.br, 2004

BORGES, Gilberto André. Educação Musical: Relatos da Experiência da Rede Municipal de Educação de Florianópolis. Anais do XII Encontro Nacional da ABEM - Associação Brasileira de Educação Musical: Florianópolis, 2003

BORGES, Gilberto André. Relato de experiência: o curso de gravação digital com softwares livres. Florianópolis: musicaeeducacao.mus.br, 2006

BORGES, Gilberto André. Interface e interação: novos caminhos para a comunicação e a arte. Florianópolis: musicaeeducacao.mus.br, 2006.

BORGES, Gilberto André. Linux e Áudio. Florianópolis: musicaeeducacao.mus.br, 2006.

BORGES, Gilberto André. Levantamento de repertório jazzístico para contrabaixo elétrico. Florianópolis: musicaeeducacao.mus.br, 2008

BORGES, Gilberto André. Análise do Choro nr.1 de Heitor Villa-Lobos. Florianópolis: musicaeeducacao.mus.br, 2006

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

2019 - Gilblack - Vã Filosofia

2019 - Vã Filosofia

 

 

 

 

 

Este EP é o quinto álbum de Gilblack, lançado em parceria com a cantora Dalau, em 2019. Este álbum traz canções compostas por Gilblack magistralmente interpretadas por Dalau, com exceção da faixa The Wind Blows On My Face, que traz a poesia de Dalau e música de Gilblack. Percebe-se uma maior sofisticação nos arranjos e a crítica social presente no conjunto da obra, característica do artista.

 

 

 

 

Gilblack no facebook: http://www.facebook.com/gilblack1234

 

Download: 2019 - Vã Filosofia

 

Ouvir no Deezer: 2019 - Va Filosofia

 

Ouvir no Spotify: 2019 - Va Filosofia

 

Ouvir no Palcomp3: http://palcomp3.com/gilblack/

 

Va Filosofia

 

 

sábado, 1 de dezembro de 2018

2018 - Gilblack - Resistência

 

 

Este é o quarto álbum de Gilblack, lançado em 2018. Neste álbum, o artista buscou aprimorar a linguagem que vem desenvolvendo ao longo dos anos. A ideia principal é a de romper com conceitos.

 

 

Ouvir no Palcomp3: http://palcomp3.com/gilblack/

 

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Download: 2018 - Resistência

 

domingo, 3 de junho de 2018

ESTAMOS FORMANDO UMA GERAÇÃO À MERCÊ DA INDÚSTRIA TECNOLÓGICA

Embora o título desta postagem pareça sensacionalista, ele reflete uma constatação real. Apesar de os jovens apresentarem uma facilidade para assimilar novas tecnologias, é preciso lembrar que a conquista de soberania nacional nesta área está diretamente relacionada com a realização de pesados investimentos estatais em ciência e tecnologia e também em educação básica. Trata-se de algo que eu já havia estudado há muitos anos durante a minha pesquisa de mestrado. Autores como Hernández (2006), Aplle (2005), Brant (2008) e Castells (1996, 2003) apontam, mesmo que cada autor destes parta do ponto de vista de uma área diferente dentro das ciências sociais, a necessidade de repensarmos o papel da educação frente às mudanças recentes na vida em sociedade. Estas mudanças possuem seu eixo no acelerado desenvolvimento tecnológico ocorrido desde a segunda metade do século XX. Estas transformações, como bem aponta Castells (1996), são totalizantes, englobando todos os aspectos da vida em sociedade.

 

O que talvez tenha passado com pouca ênfase para mim na época do mestrado é o quanto o desenvolvimento tecnológico poderia ser usado para subjugar populações inteiras. Isto pode ser compreensível considerando-se que ao longo da última década descobrimos que a tecnologia avançou significativamente em muitos campos sobre os quais, à época, não havia muita informação disponível, como por exemplo, na área militar. Toda a discussão em torno das chamadas "armas com autonomia letal" era assunto para especialistas, apenas. Também me parece relevante citar que, há dez anos atrás, o país vivia tempos de otimismo. Acreditávamos que o Brasil, em especial, comporia uma vanguarda ética e que rumava para o grupo de sociedades desenvolvidas onde o combate às desigualdades sociais e a inclusão social das minorias menos favorecidas seria um fato consequente e inevitável. Atravessávamos tempos de prosperidade econômica e de inclusão social. Este cenário favorecia a crença de que o acesso à educação básica para todos, condições de saúde pública, alimentação e ao consumo nos tornaria uma nação onde o desenvolvimento tecnológico estaria ao alcance das novas gerações de brasileiros. Investimentos estatais em ciência e tecnologia, criação de novas universidades, escolas técnicas, financiamento estudantil para graduação, bolsas de pesquisa no Brasil e no exterior e incentivos para programas de mestrado e doutorado nos davam a certeza de que o Brasil do futuro jamais pegaria o bonde de volta ao passado de submissão ao capital internacional, fome e exclusão social.

 

É triste constatar o quanto estávamos enganados! O Golpe de Estado de 2016 alterou profundamente a percepção que tínhamos acerca do país. Percebemos que a Ditadura Militar que tanto combatemos no período 1964-1986 havia deixado sequelas muito graves que a Nova República e a Constituição Cidadã de 1988 não conseguiram curar completamente. Os acordos políticos que costuraram os governos de Luís Inácio Lula da Silva e de Dilma Rouseff não resistiram ao pensamento retrógrado das elites tradicionais brasileiras, às quais lançando mão do seu poderio financeiro e midiático estão conseguindo impor, por meio do golpe, uma agenda política de retirada de direitos e de conquistas sociais. A educação sempre esteve na pauta primeira de todos os golpes de Estado do período republicano no Brasil. Que nos diga Getúlio Vargas e a Escola Nova; a Ditadura de 64 e o desmonte da educação pública brasileira; que nos digam os golpistas de 2016 que em poucos meses de governo, já demonstram a pretensão de destruir tudo o que foi conquistado a duras lutas, desde 1986.

 

Como professor da Educação Básica atuando em escola pública, percebo a cada dia o quanto nos distanciamos da possibilidade de formarmos cidadãos livres, exceto pelo nosso exemplo de lutas. A categoria do magistério, no Brasil, sempre apresentou uma expressiva participação nas lutas sociais que desembocaram no breve período democrático dos últimos anos. Mais especificamente, entre 1986 e 2016. Mesmo durante este período os professores continuaram suas lutas por melhores condições de trabalho e pelo cumprimento por parte do Estado do seu dever constitucional referente à educação. Nos últimos meses, após a deflagração do Golpe de Estado de 2016, a categoria do magistério tem integrado as lutas sociais por democracia e manutenção dos direitos sociais de forma ativa, sendo, inclusive, uma das categorias mais atacadas em seus direitos pela ditadura civil instaurada pelo presidente ilegítimo Michel Temer. A partir do exemplo presidencial, governadores e prefeitos Brasil afora partiram para ataques à área de educação alegando, mentirosamente, altos custos e o eterno discurso da falta de eficiência das redes públicas de ensino.

 

O próprio Ministério da Educação omitiu, recentemente dados sobre o ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio. Nos dados divulgados, o desempenho dos CEFET – Centros Federais de Educação Tecnológica não foi incluído, o que deu margem para a mídia golpista divulgar que as escolas privadas haviam obtido melhor desempenho. O discurso mentiroso sobre a educação pública sai do Palácio do Planalto e chega até a mais humilde prefeitura país afora. O interesse envolvido nisso é claro: o desmonte do serviço público. O ideário neoliberal de estado mínimo levado para as últimas consequências transferiria para a população a obrigação de pagar por serviços privados em áreas essenciais como educação, saúde, previdência, infraestrutura e segurança. O Estado, neste cenário, seria apenas um coletor de impostos e um distribuidor de benesses para uma pequena minoria privilegiada. A esmagadora maioria dos brasileiros estaria alijada de qualquer benefício no tocante ao pacto federativo. O papel dos pobres neste país seria apenas o de serviçais de uma elite burra e arcaica! A presença do Estado nas periferias pobres se resumiria à repressão policial: estado de sítio!

 

Este projeto de concentração de renda e poder no país está em curso em velocidade plena. Todas as iniciativas do governo ilegítimo de Michel Temer giram em torno da implementação deste processo de desmonte das políticas públicas em todas as áreas: a implementação de um Ensino Médio sem debate com a sociedade, feito por medida provisória na primeira semana após o Golpe de Estado de 2016 (típico de uma ditadura!); o fim dos direitos trabalhistas cristalizados na CLT – Consolidação das Leis do Trabalho; a reforma da previdência social, ampliando o tempo de contribuição para aposentadoria para o limite da expectativa de vida do brasileiros; a aprovação da terceirização da atividade fim, o golpe de misericórdia no serviço público; entre outros inúmeros absurdos que compõem a agenda política do golpe.

 

Frente a tudo isso, me deparo com mais um dia de trabalho em uma escola de Ensino Fundamental, onde a nossa percepção nos leva a constatação de que tudo naquele espaço foi pensado para não funcionar. Onde tudo foi feito para prejudicar o acesso à educação pelos alunos. Vejam bem que não estou me referindo à direção da escola. Trata-se de uma escola de Ensino Fundamental da Rede pública municipal, que está em reforma há mais de um ano. A direção da escola procura atuar no impossível, mas a responsabilidade pelo caos é do executivo municipal. Salas de aula improvisadas, sem ventiladores, sem biblioteca (apenas algumas obras disponíveis) e há mais de um ano sem computadores! Professores que vieram de mais de trinta dias de greve por conta de uma tentativa de retirada de direitos por parte do executivo municipal, que foi vencida na luta! Professores, estes, que tiveram salários atrasados, receberam férias e 13º salário com atraso. Este é o cenário hoje. Imaginem daqui a 20 anos quando vencer (se não for prorrogado) o prazo de congelamento em investimentos da PEC 51.

 

Sim. Estamos formando uma geração de escravos digitais. Meros consumidores de tecnologia criada por empresas estrangeiras. Mal damos conta da alfabetização em Língua Portuguesa e Matemática. Formamos analfabetos funcionais não porque os professores não sabem ensinar, mas sim porque atuam em condições péssimas de trabalho. Sou professor de música que leciona há mais de um ano em um canteiro de obras. Em dezesseis anos atuando na Rede Pública Municipal, nunca tive uma sala de música. Em muitas escolas, sequer tive instrumentos e materiais para lecionar. Ora. Para que nossos alunos possam minimamente estar integrados nesta sociedade baseada em tecnologia que vivemos, deveria eu estar ensinando música computacional, além da música tradicional e da musicalização. Principalmente para os anos finais do Ensino Fundamental. Estes alunos já deveriam estar tendo um contato com a desmistificação da tecnologia, com projetos colaborativos de código aberto, com o protagonismo tecnológico. Tudo isto para não serem escravos em um futuro próximo. Nem consumidores: escravos a mercê dos interesses corporativos da indústria tecnológica. Isto não faz referência apenas a chamada área de informática. Tecnologia abrange todas as áreas do conhecimento humano, pois tecnologia é o próprio conhecimento acumulado em ação.

 

Imaginem a biotecnologia com a qual esta geração de jovens irá se confrontar no futuro. Imaginem o desafio que será para estes jovens oriundos de escola pública integrar grupos de trabalho em alta tecnologia. Aplle (2005) fala com muita propriedade que, toda a vez que o Estado deixa de agir, ele está tomando partido pelos mais favorecidos. É simples: o estudante pobre que não tem computador para estudar em casa vai concorrer em pé de desigualdade com o estudante rico que tem computador, celular de última geração, instrumentos musicais, acesso ao consumo de bens culturais, etc. O papel do Estado, para equilibrar essa desigualdade seria o de proporcionar o acesso às mesmas condições de aprendizado e desenvolvimento pessoal na escola. Países onde a educação é tratada com seriedade fazem isso. Investem em igualdade de condições na escola pública. Enquanto isso, numa certa república das bananas ao sul do Equador, professores são tratados como problema; investimento em escola é considerado gasto; o desmonte da educação pública caminha a passos largos. Saio do pátio da escola com a garganta apertada. O meu grito sufocado é o grito de milhões de professores no Brasil. Um grito de desespero e de inconformação. A nossa luta é diária. Haveremos de reconquistar a democracia perdida neste país!


Gilberto André Borges

 

Para saber mais:

 

APPLE, Michael W. Para além da lógica do mercado. Compreendendo e opondo-se ao neoliberalismo. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

 

BRANT, João. O lugar da educação no confronto entre colaboração e competição. In: PRETTO, Nelson De Luca; SILVEIRA, Sérgio Amadeu da (org.). Além das Redes de Colaboração. Internet, diversidade cultural e tecnologias do poder. Salvador: EDUFBA, 2008.

 

CASTELLS, Manuel. Fluxos, Redes e Identidades: Uma Teoria Crítica da Sociedade Informacional. In: CASTELLS, Manuel; FLECHA, Ramón; FREIRE, Paulo; GIROUX, Henry; MACEDO, Donaldo; WILLIS, Paul. Novas Perspectivas Críticas em Educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

 

_______. A Galáxia da Internet. Reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

 

HERNÁNDEZ, Fernando. Por que dizemos que somos a favor da educação se optamos por um caminho que deseduca e exclui? In: HERNÁNDEZ, Fernando; SANCHO, Juana María (org.). Tecnologias para transformar a educação. Porto Alegre: Artmed, 2006.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Usando as interfaces Behringer UCA200 / UCA202 / UCA222 no Linux

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As interfaces Behringer UCA 200 / 202 / 222 servem para efetuar a entrada e saída de sinal de áudio, com baixa latência, por meio de uma porta USB. Possuem uma entrada estéreo RCA e uma saída estéreo RCA. Basicamente, os três modelos são o mesmo produto e funcionam de forma análoga no Linux. Apesar desta similaridade, há algumas diferenças entre elas que detalharemos a seguir.

A interface UCA 200 não está disponível no mercado para compra. Ela acompanha as mesas Behringer da linha XENYX e serve de intermediário entre a mesa e a porta USB do micro. Este modelo não possui saída SPDIF, saída para fones de ouvido (plugue P2 estéreo) e nem controle de volume. Os modelos UCA 202 e UCA 222 diferem apenas no pacote de softwares que acompanham os produtos e possuem as saídas SPDIF e P2 estéreo e também um controle de volume. Além destes controles, os modelos UCA 202 e UCA 222 possuem uma chave liga-desliga que não está presente na UCA 200. A UCA 202 não acompanha nenhum software, enquanto a UCA 222 inclui um pacote de programas. A Behringer anuncia que a UCA 222 é compatível com PC ou MAC. Alguém precisa avisar a Behringer que todas estes três modelos de interfaces são perfeitamente suportados no Linux sem necessidade de instalar nenhum software ou drive adicional. É importante o fabricante divulgar a compatibilidade com Linux e dar suporte para a comunidade do software livre, afinal, constituímos um público que não consome software pirata e primamos pela qualidade de hardware e software.

No tocante à qualidade do áudio, estas interfaces trabalham com baixa latência, com uma taxa de amostragem máxima de 48000hz. Todos os três modelos são alimentados via USB. A única conexão com o computador é feita pela porta USB. Na entrada de áudio estéreo, deve ser conectado, por meio de cabos RCA, a fonte de entrada do som. Esta fonte pode ser uma mesa de som, um aparelho de som, um amplificador, a saída de linha de um cubo de guitarra ou baixo, um tocador de cd ou dvd; enfim, tudo que for conectável por meio de cabos RCA e possua impedância compatível com este tipo de ligação. O que quero dizer com isto é que não é possível ligar um instrumento diretamente neste tipo de interface. Mesmo que o usuário consiga contornar a questão de incompatibilidade dos conectores – RCA na interface e P10 no instrumento – por meio de adaptações, a ligação não funcionará devido à diferença de impedância. Na saída de áudio estéreo, o usuário deve conectar os monitores de referência, um aparelho de som que irá reproduzir a saída de som da interface, a entrada de um amplificador e etcétera.

Conectando-se as entradas e saídas de áudio da interface e o cabo USB no micro, estamos prontos para iniciar o trabalho. Podemos verificar se a interface foi encontrada com o seguinte comando:


user@linux:~$ lsusb Bus 001 Device 001: ID 1d6b:0002 Linux Foundation 2.0 root hub Bus 002 Device 001: ID 1d6b:0001 Linux Foundation 1.1 root hub Bus 003 Device 001: ID 1d6b:0001 Linux Foundation 1.1 root hub Bus 004 Device 002: ID 08bb:2902 Texas Instruments Japan PCM2902 Audio Codec


Podemos perceber que a interface foi encontrada. Para produzir este artigo estou usando o modelo UCA200, que foi detectado como PCM2902. O próximo passo consiste em configurar o jackd para usar a placa. Efetuamos este teste em um equipamento montado com uma placa M-Audio 1010lt e uma placa onboard HDA Intel. Utilizamos o kernel 3.2.0-32-generic-pae, rodando Debian Wheezy. Apesar de este kernel não estar preparado para baixa latência, consegue operar em tempo real, o que é suficiente em muitos casos para uma boa gravação de áudio. Para verificar as placas de áudio existentes em seu equipamento, você deve entrar com os seguintes comandos aplay -l e arecord -l. No nosso caso, o console retornou os seguintes valores:


user@linux:~$ aplay -l **** Lista de Dispositivos PLAYBACK Hardware **** placa 0: Intel [HDA Intel], dispositivo 0: ALC662 rev1 Analog [ALC662 rev1 Analog] Dispositivo secundário: 1/1 Dispositivo secundário #0: subdevice #0 placa 1: M1010LT [M Audio Delta 1010LT], dispositivo 0: ICE1712 multi [ICE1712 multi] Dispositivo secundário: 1/1 Dispositivo secundário #0: subdevice #0 placa 2: CODEC [USB Audio CODEC], dispositivo 0: USB Audio [USB Audio] Dispositivo secundário: 1/1 Dispositivo secundário #0: subdevice #0


user@linux:~$ arecord -l **** Lista de Dispositivos CAPTURE Hardware **** placa 0: Intel [HDA Intel], dispositivo 0: ALC662 rev1 Analog [ALC662 rev1 Analog] Dispositivo secundário: 1/1 Dispositivo secundário #0: subdevice #0 placa 0: Intel [HDA Intel], dispositivo 2: ALC662 rev1 Analog [ALC662 rev1 Analog] Dispositivo secundário: 1/1 Dispositivo secundário #0: subdevice #0 placa 1: M1010LT [M Audio Delta 1010LT], dispositivo 0: ICE1712 multi [ICE1712 multi] Dispositivo secundário: 1/1 Dispositivo secundário #0: subdevice #0 placa 2: CODEC [USB Audio CODEC], dispositivo 0: USB Audio [USB Audio] Dispositivo secundário: 1/1 Dispositivo secundário #0: subdevice #0


Para alterar o nível de pressão acústica de entrada e de saída da interface, o mixer mais apropriado é o alsamixer. Para acessar a interface, neste caso que estamos relatando, é preciso identificar a placa de som pois, por padrão, o comando alsamixer usado sem parâmetro algum irá abrir a primeira placa de som da lista, no caso a placa HDA Intel. Desta forma, usamos o comando alsamixer -c2. O parâmetro -c serve para selecionar a placa de som e o número 2, no nosso sistema, identifica a placa USB Audio CODEC. Na figura 1, temos a saída do comando alsamixer -c2.


Figura 1. saída do comando alsamixer -c2



Podemos perceber que esta placa somente possui controle do volume de saída. O controle de volume de captura não está disponível. Na realidade, o controle de volume de captura deve ser feito na unidade física conectada à entrada RCA da interface ou, na impossibilidade de isto ser feito, no controle de entrada do software de gravação que estaremos utilizando. A primeira alternativa é a mais recomendada, pois o sinal de áudio que entrar pela captura da placa não poderá clipar, distorcendo a gravação.

Com a placa selecionada e com o volume adequado, já é possível gravar usando o Audacity, por exemplo. Para tanto, basta abrir o programa e selecionar a placa de captura em Editar → Preferências → Dispositivos, conforme detalhamos na figura 2.


Figura 2: preferências Audacity



Para uma captura mais profissional, usando um DAW como o Ardour, por exemplo, é preciso configurar o jackd para usar esta interface de áudio. A única tarefa a ser realizada é indicar esta placa nas configurações do qjackctl. Na figura 3, apresentamos uma sugestão de configuração para o jack.


Figura 3: parâmetros do jackd



Para obter esta configuração do jackd via linha de comando os parâmetros deverão ser semelhantes aos da sequência abaixo:


/usr/bin/jackd -P20 -p1024 -t5000 -m -dalsa -dhw:2 -r48000 -p256 -n2 -s -S -H -M -Xseq


Onde os valores mais importantes são:


p: port maximum

t: timeout

r: taxa de amostragem

dhw: numero da interface de áudio


Ativando-se o jackd desta forma, é possível efetuar qualquer operação de gravação ou de modulação do som em qualquer software que se conecte ao jackd. Aproveite a flexibilidade destas interfaces, as quais podem ser levadas junto com um notebook para qualquer local e realize boas capturas. Claro, use linux sempre.


Gilberto André Borges

Mestre em Música / UDESC



Elementos Comuns nas Artes

Todas as artes envolvem criatividade humana, uso de materiais ou suportes específicos e processos de criação que resultam em uma obra com va...