A intenção, aos escrever essas breves dicas para uso de equipamentos
caseiros, parte do quadro pandêmico em que nos encontramos, momento em
que diversos profissionais da Rede Municipal de Ensino vêem-se embuídos
do teletrabalho e precisam criar conteúdos usando materiais e
equipamentos que tiverem à mão. Neste sentido, telefones celulares
possuem microfones superiores à grande maioria dos computadores.
Telefones móveis possuem microfones condensadores otimizados para
captura do áudio da voz humana e ofertam a possibilidade de captura de
áudio sem a necessidade de instalação de nenhum aplicativo. O melhor
áudio que qualquer aplicativo conseguir capturar não oferecerá uma
vantagem audível em equipamentos comuns comparando-se ao áudio da câmera
em modo de alta definição (HD). Assim, se seu celular não possui
memória para a instalação de um aplicativo de gravação de voz, use a
câmera do aparelho e depois descarte o vídeo, ficando somente com o
áudio na hora da edição. Outra vantagem do celular advém do fato de que é
completamente silencioso, ao contrário de computadores que possuem
ventoinhas e discos rígidos mecânicos que produzem ruídos ao operar.
Então, esse é o material mais indicado.
Para quem insiste no uso do computador, melhor opção ao microfone do
aparelho são os microfones externos tipo USB, de fácil conexão e
instalação. O uso do microfone do próprio computadores não é recomendado
porque normalmente captura ruídos do próprio equipamento, como
ventoinhas, discos rígidos e outros. O uso de um microfone conectado na
placa de áudio do computador pode produzir bons resultados dependendo da
qualidade do microfone e da boa conexão com a placa. Em áudio
profissional a conexão entre microfone e placa de som é feita usando-se
com plugues maiores ou, até mesmo, por conectores balanceados. A entrada
e saída de áudio nos equipamentos domésticos ocorre, normalmente,
utilizando-se cabos tipo P2, que são pequenos demais para os pesados
cabos de microfone. Havendo boa conexão e utilizando-se um bom
microfone, pode-se obter um bom resultado com o computador.
Gravar áudio é um processo criativo. A construção de um fonograma
passa por diferentes etapas e situações diversificadas podem acontecer
ao longo do caminho. Um produtor experiente busca equilibrar as
limitações físicas provenientes das leis da ondulatória geral e da
acústica, com as limitações acústicas de instrumentos, equipamentos e
espaços de captura, buscando preservar as características da amostra em
questão. Trata-se de engenharia complexa. Muitas vezes a matemática
envolvida chega a ser indecifrável aos não iniciados, de maneira que a
nossa sensibilidade ao som precisa assumir o processo. Então vou ater-me
diretamente nas dicas práticas. Explicações teóricas, sejam do campo da
física, da música, da psicoacústica ou de outros campos poderão ser
detalhadas em momento mais oportuno. Também é preciso atentar ao fato de
que nos limitaremos a dicas de captura de áudio. Edição, mixagem e
masterização são processos complexos demais para serem abordados nestas
poucas linhas e merecem um tutorial à parte.
Hardware: telefone celular com qualquer sistema operacional.
Software de captura: câmera
Dicas de captura:
- Fale direcionalmente ao microfone. Normalmente, o microfone fica na
parte frontal inferior do aparelho. Dirija a voz para aquele ponto. Dê
preferência a repousar o aparelho sobre uma mesa ou suporte de modo que o
microfone fique fixo sem receber choques ou mudanças de ângulo durante a
gravação. Use o telefone como se fosse um daqueles antigos gravadores
k7 de mesa.
- Use microfonação afastada. Coloque o aparelho na sua frente, com
uma distância ideal entre 30 e 60 cm. É uma distância pequena que
evitará o que chamamos de pop noise, que é o ruído do ar
(vento) dirigido ao microfone. Algumas consoantes geram um pulso de ar
que prejudica muito a inteligibilidade do áudio e é trabalhoso resolver
este problema na edição. Para gravar instrumentos acústicos também é
melhor empregar microfonação afastada. Teste a gravação e reposicione o
aparelho se preciso.
- Reflexão planejada. O som é uma onda, assim como a luz e, como tal é
refletido ou absorvido por diferentes materiais. Materiais duros, em
geral, são reflexivos: paredes, vidros, metais, azulejos, entre outros.
Tecidos e espumas são absorventes: colchões, tapetes, travesseiros, etc.
Uma captura de voz para posterior edição requer que o áudio possua a
menor quantidade possível de relexão, pois a ambiência é acrescentada
posteriormente. Captura de voz sem edição, por outro lado, é melhor que
seja feita em um ambiente mais reflexivo. No caso da EJA Centro I,
estamos trabalhando com a primeira alternativa, ou seja, áudio com pouca
relexão para tratamento à posteriori.
- Silêncio é meta! Silêncio absoluto só é possível ser obtido em
condições muito especiais e em laboratórios complexos construídos
especificamente para isso. Então, temos que encarar o silêncio do
ambiente como meta! Se preciso, desligue aparelhos, feche portas e
janelas, espere o carro passar, o avião ou o barulho na vizinhança. Por
mais que seja possível tratar uma peça de áudio, tanto quanto menos
edição, melhor, em função de várias variáveis. Não se faz edição de
áudio sem prejuízo do sinal. Você professor também não irá querer gastar
horas na edição de um áudio, que é processo complexo e trabalhoso,
sendo que todo este trabalho poderia haver sido evitado com a busca de
silêncio no set de gravação.
- Todos que possuem automóveis possuem também uma cabine de som em
casa. O interior dos automóveis é construído para minimizar os ruídos
externos e os ruídos mecânicos do próprio veículo. Materiais
absorventes, como tecidos, são abundantes no interior dos veículos e
minimizam a vibração dos vidros que, por sinal, são bastante reforçados e
vedados, de modo que vibram minimamente. Com o veículo todo fechado,
desligado e estacionado em um lugar silencioso você terá uma verdadeira
cabine de áudio.
- Caso não consiga resolver o ambiente, elimine-o. É exatamente isso.
Se você não possui um lugar adequado, com pouca relexão acústica, uma
opção a considerar-se é gravar ao ar livre, sem a presença de ambiente
nenhum. Mas lembre-se, você precisará de silêncio, então gravar ao ar
livre só é viável se, realmente, você está em um local silencioso. Caso
seja esta a sua situação, evite ficar contra o vento e use microfonação
próxima, falando a poucos centímetros do celular.
- Articule bem as palavas. Cuidado com as consoantes como “p” e “b”,
pois podem gerar uma coluna pesada de ar, que resulta em um pulso grave.
Consoantes como “c” com som de “k” e “k” produzem um som gutural que,
em alguns casos, resulta em um clique seco no áudio. Com microfonação
afastada, não ha muito problema com as consoantes, mas, utilizando-se de
microfonação próxima, sim, o controle das consoantes é fundamental para
um bom resultado final.
Gilberto André Borges