quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Usando o Microfone Condensador Behringer C-1U com GNU-Linux

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O microfone Behringer C-1U possui uma placa de som integrada. Esta característica o transforma em um equipamento extremamente versátil para uso profissional ou em um home studio. Trata-se de um microfone cardioide e direcional, ou seja, deve ser direcionado à fonte sonora que pretende-se capturar. Desta forma, o microfone capta melhor o som que recebe pela sua parte frontal, diminuindo a captação de ruídos provenientes da parte traseira do equipamento. Em determinadas situações, esta característica é desejável.

Este microfone, equipado com uma membrana de 16mm, fornece uma resposta extremamente flat na captura, com uma resposta de frequência que vai de 40hz a 20khz. O nível máximo de pressão acústica chega a 136db. Para fornecer uma ideia da pressão suportada, uma placa de som profissional como a M-Audio 1010lt suporta 127db de pressão acústica. Trata-se, portanto, de um microfone de excelente resposta em termos de frequência e pressão.

A curva de resposta de frequência não é plana. Ela segue plana em 0db dos 40hz até em torno de 1khz e atinge um pico de 5db em 10khz, retornando a 0db em 20khz. O que ocorre nesta curva de resposta é um reforço das frequências de brilho típicos da voz humana e também de alguns instrumentos, como o violão, por exemplo. Podemos ver na figura 1, o gráfico da curva de resposta e o diagrama polar do microfone, extraídos do Manual de Instruções.


Figura 1. curva de resposta e diagrama polar



Este microfone deve ser conectado em uma porta USB no micro. Como já foi dito, ele possui uma placa de som integrada. Assim, dispensa o uso de placa de som, mesa de som, direct box, pré-amplificadores ou qualquer outro tipo de intermediação entre o som a ser capturado e o registro digital feito pelo DAW. Inclusive, não há como ligá-lo a uma mesa de som ou entrada de placa de som. O cabo que acompanha o aparelho possui um encaixe para o microfone em uma das extremidades e um plug USB na outra extremidade.

Compatível com o módulo ALSA USB Audio, o microfone deve ser conectado ao computador depois do boot. Não há necessidade de conectá-lo antes do boot. Inclusive, o equipamento pode ser conectado e desconectado a qualquer tempo, que o módulo ALSA correspondente será ativado e desativado corretamente.

Efetuamos o teste do microfone em um equipamento montado com uma placa M-Audio 1010lt e uma placa onboard HDA Intel. Utilizamos um kernel 2.6.28.4, rodando um sistema Debian GNU/Linux 5.0. É importante salientar que este kernel não está preparado para baixa latência, apenas para operação em tempo real. Para verificar as placas existentes em seu equipamento, você deve entrar com os seguintes comandos aplay -l e arecord -l. No nosso caso, o console retornou os seguintes valores:


user@linux:~$ aplay -l **** List of PLAYBACK Hardware Devices **** card 0: Intel [HDA Intel], device 0: ALC662 Analog [ALC662 Analog] Subdevices: 0/1 Subdevice #0: subdevice #0 card 1: M1010LT [M Audio Delta 1010LT], device 0: ICE1712 multi [ICE1712 multi] Subdevices: 1/1 Subdevice #0: subdevice #0


user@linux:~$ arecord -l **** List of CAPTURE Hardware Devices **** card 0: Intel [HDA Intel], device 0: ALC662 Analog [ALC662 Analog] Subdevices: 1/1 Subdevice #0: subdevice #0 card 1: M1010LT [M Audio Delta 1010LT], device 0: ICE1712 multi [ICE1712 multi] Subdevices: 1/1 Subdevice #0: subdevice #0 card 2: default [C-1U ], device 0: USB Audio [USB Audio] Subdevices: 0/1 Subdevice #0: subdevice #0


É importante salientar que o microfone não aparece quando entramos com o comando aplay, apenas com o comando arecord. Isto acontece por um motivo óbvio. A placa de som integrada ao microfone é apenas para captura. Não há nenhuma saída de som ou algo neste sentido. Para alterar o nível de pressão acústica de entrada do microfone, o mixer mais apropriado é o alsamixer. Para acessar a placa do microfone, no caso que estamos relatando, é preciso identificar a placa de som pois, por padrão, o comando alsamixer usado sem parâmetro algum irá abrir a primeira placa de som da lista, no caso a placa HDA Intel. Desta forma, usamos o comando alsamixer -c2. O parâmetro -c serve para selecionar a placa de som e o número 2, no nosso sistema, identifica a placa C-1U USB Audio. Na figura 2, temos a saída do comando alsamixer -c2.


Figura 2: alsamixer -c2



Com a placa selecionada e com o volume adequado, já é possível gravar usando o Audacity, por exemplo. Para tanto, basta abrir o programa e selecionar a placa de captura em Editar → Preferências → Dispositivos, conforme detalhamos na figura 3.


Figura 3: preferências do Audacity



Para uma captura mais profissional, usando um DAW como o Ardour, por exemplo, é preciso configurar o jackd para usar duas placas de som. Caso tente configurar o jackd para apenas captura, na versão que estamos utilizando (jackd 0.116.2), o sistema retornaria um erro. Na figura 4, podemos verificar a configuração adequada para o jackd.


Figura 4: parâmetros do jackd




Para obter esta configuração do jackd via linha de comando os parâmetros deverão ser semelhantes aos da seguinte sequência:


/usr/bin/jackd -v -R -p512 -t2000 -m -dalsa -r44100 -p64 -n3 -D -Chw:2,0 -Phw:0 -s -H -M


Onde os valores mais importantes são:


p: port maximum

t: timeout

r: taxa de amostragem

Chw: numero da placa de captura

Phw: numero da placa de reprodução


Ativando o jackd desta forma, é possível efetuar qualquer operação de gravação ou de modulação do som em qualquer software que se conecte ao jackd. A latência mais baixa que obtivemos foi de 4,35ms em um kernel comum. Acreditamos que com um núcleo preparado para baixa latência obteríamos valores muito mais baixos. De qualquer forma, com esta latência já seria possível realizar uma gravação profissional.

Aproveite a flexibilidade do microfone, que pode ser levado junto com um notebook para qualquer local e realize boas capturas. Posicione o microfone adequadamente utilizando o cachimbo que acompanha o produto e dê asas à sua imaginação. Dizer para usar software livre, sempre, é redundante, mas... use software e hardware livres.


Gilberto André Borges

Mestre em Música / UDESC

sexta-feira, 1 de julho de 2016

FLAUTA DOCE NA SALA DE AULA. Digitação germânica ou barroca?

A pergunta que dá título a esta postagem refere-se a um questionamento que venho me fazendo há muito tempo. Nos últimos dezesseis anos tenho trabalhado como professor de Música efetivo na Rede Municipal de Florianópolis. Sempre trabalhei com os alunos dos anos finais do Ensino Fundamental. Há dois anos, porém, caí de paraquedas em turmas dos anos iniciais. Coincidentemente (ou não), nos últimos dois anos, esta questão específica relacionada com o ensino de flauta, passou a me incomodar demais. Durante anos, não tinha uma resposta para dar e então seguia as orientações obtidas durante o curso de Licenciatura em Música: as flautas de digitação barroca possuem uma melhor afinação e qualidade sonora equilibrada em toda a extensão do instrumento. Isto me bastava para adotar a flauta de digitação barroca, sem sequer procurar saber mais profundamente se este argumento era verdadeiramente válido. Repetia uma prática que vinha da academia em um contexto completamente diverso, que é o do chão da sala de aula. É claro que os alunos conseguiam aprender a tocar a flauta doce soprano de digitação barroca e isto, de certa forma, também me bastava.

 

Mas a experiência é a flor que brota da labuta pesada sobre a terra estéril da ignorância e eis que a experiência foi amansando o índio velho que escreve este blog. Hoje, depois de tanto bater na porta fechada da nota fa3 da mecânica da digitação barroca com os alunos, me vejo um defensor convicto (até me provem o contrário) da digitação germânica. As razões são várias e, acredito piamente, que os benefícios desta digitação superam de longe a suposta melhor afinação e qualidade sonora da flauta barroca. Digo suposta superioridade da flauta barroca, pois, tudo neste aspecto de qualidade sonora e de afinação de instrumentos musicais é relativo e depende de muitos fatores. Mas para simplificar esta discussão, vale argumentar o que qualquer luthier qualificado endossaria: uma boa flauta germânica vai entregar um resultado sonoro melhor e uma afinação mais precisa do que qualquer flauta barroca de qualidade duvidosa. Há boas flautas germânicas no mercado, inclusive flautas profissionais, confeccionadas em madeiras de excelente qualidade. Movido pela curiosidade, adquiri uma flauta soprano germânica em madeira e me surpreendi com a qualidade do instrumento.

 

Para a criança que está cursando os anos iniciais do Ensino Fundamental, a digitação germânica é aprendida com muito mais naturalidade. Vai-se introduzindo nota a nota sem surpresas na aprendizagem da escala diatônica de do maior. No estudo da digitação barroca, tudo ocorre tranquilamente na aprendizagem da primeira fase da flauta, que corresponde às notas sol3 a re4. Na passagem para a segunda fase do instrumento, que corresponde à aprendizagem das notas do3 a fa3, tudo fica difícil para o aluno, que além de ampliar a necessidade de coordenação motora para as duas mãos, se vê surpreendido com uma digitação em forquilha (ou garfo, para alguns autores) que quebra a lógica anterior na qual para a obtenção de cada nota mais grave no âmbito da escala, um furo a mais se fecha. A digitação germânica não dispensa à coordenação simultânea de ambas as mãos, mas mantém a lógica no desenho da digitação.

 

Para a criança, faz muita diferença este pequeno detalhe no desenho da digitação da escala. O tempo demandado no estudo da mecânica do movimento, pode ser empregado na melhora da performance. Isto também traz um ganho enorme à qualidade da aula e ajuda a manter o interesse da turma no repertório, que pode ser executado com mais facilidade e com mais musicalidade. A extensão máxima do repertório que tenho trabalhado em todos os anos do Ensino Fundamental é de uma oitava e uma sexta, mais especificamente, do do3 ao la4. A extensão média do repertório estudado vai do do3 ao re4. Nesta tessitura, a flauta germânica entrega uma afinação tão precisa quanto a barroca com a mesma qualidade sonora.

 

Um outro argumento a ser considerado na defesa do emprego da digitação germânica na sala de aula da disciplina Música curricular, se refere ao enlace que esta possui em relação à digitação de outros instrumentos da família das madeiras. Depois de dezesseis anos na sala de aula dentro de uma disciplina curricular, me foi natural desejar ter no quadro de instrumentos outros instrumentos de sopro além da flauta. Neste sentido, há alguns anos atrás, resolvi adquirir um saxofone e aprender a tocá-lo minimamente para reproduzir alguns temas de jazz e improvisar. Escolhi o sax tenor, por gostar mais da sonoridade. Pois, bem. A digitação do sax nem de longe se parece com a digitação barroca da flauta doce, mas possui muita similaridade com a digitação germânica. Isto também vale para o sistema Bohëm, utilizado na imensa maioria dos clarinetes. Ora. Nove anos de estudo de instrumento no Ensino Fundamental podem (e, na minha opinião, devem) instrumentalizar o aluno para tocar instrumentos de maior tessitura e aceitação na música popular e erudita. Desta forma, a passagem da flauta doce para outros instrumentos de sopro, sobretudo os da família das madeiras será muito mais natural se, ao longo dos nove anos de ensino fundamental, este aluno aprendeu a tocar a flauta doce germânica. Eu sei que cada instrumento possui a sua digitação e a sua mecânica e que muitos diriam que este argumento não procede, afinal, o saxofone, por exemplo, é um instrumento transpositor e a flauta não. Mas, na minha experiência pessoal como instrumentista é mais fácil aplicar a mesma lógica de digitação em instrumentos diferentes.

 

De longe, nesta postagem, gostaria de enfatizar que a experiência da sala de aula pode suplantar a necessidade de uma literatura de apoio. Pelo contrário, acredito que a teoria e a prática devem caminhar juntas. O que se passa é que gostaria de dividir o resultado destas observações empíricas no espaço deste blog. Deixo a pesquisa, a crítica e, até quem sabe, a refutação completa de todos os argumentos para os leitores, afinal ninguém é dono da verdade, mas a divagação é livre.


Gilberto André Borges


Elementos Comuns nas Artes

Todas as artes envolvem criatividade humana, uso de materiais ou suportes específicos e processos de criação que resultam em uma obra com va...